A solidão

A solidão é uma inquietação que sempre se fez sentir no decorrer da história do Homem. É um conceito não moderno, mas uma realidade experimentada por muitos nos tempos actuais e que será experimentada no futuro por muitos mais (na minha opinião).
O Homem é um ser dotado de subjectividade – é um ser dotado de um espaço interno único que se constrói através da experiência. É esse mesmo espaço que o torna único.

Assim, a solidão representa uma experiência, um estado, um sentimento (profundo) ou seja, uma percepção subjectiva, única, própria, singular e, resultado da vivência e da existência.
A experiência de solidão, no meu ponto de vista, tem que ver, sobretudo, com a experiência (ou não experiência) relacional. A dimensão relacional é talvez a mais importante dimensão da realidade do Ser-Se-Humano. Somos seres de relação antes mesmo de sermos gente. Já in utero nos relacionamos. Já somos vistos e olhados atentamente por um Outro. Já existimos.
Portanto, a experiência de não ser visto pelo Outro significa não ter valor aos olhos do Outro. Contudo, poderemos tentar compreendê-lo. Colocar-nos no lugar dele. E para isso olhar o mundo com os olhos e através dos olhos do Outro e, assim, melhor o compreender e, consequentemente, conter.
A conjectura da própria vida moderna forjou um Homem, capaz de pensar mas que não pensa e, não pensa porque lhe foi roubado o tempo para pensar. Porque o imediatismo e a lógica da impulsividade (por oposição à interioridade, ponderação e reflexão) são os imperativos da sua vivência. Vivemos um tempo onde não há tempo. Onde impera a necessidade imediata, a avidez e a canibalização do Outro – “a cultura do narcisismo” – relembrando-nos a omnipotência infantil (marco do nosso desenvolvimento). Há a primazia do ego ao invés do investimento na relação. E, por isso, o Homem moderno constrói cercas entre si e o mundo, afastando os outros iguais a si, ficando refém da solidão e do desamparo – isola-se.

A solidão e o desamparo andam par a par e a própria solidão é expressa na medida da sensação do desamparo e, também, do abandono.
A minha experiência clínica e humana levam-me a reconhecer (cada vez mais) que a necessidade primária e existencial é a possibilidade de relação. São vários os autores que, ao longo da história, referiram e referem a necessidade fundamental de um outro, suficientemente bom. Que esteja atento, que nos olhe e que seja responsivo.
Será a prevalência das experiências boas (sobre as más) que condicionam o desenvolvimento sadio (saudável) do Homem.
O confronto clínico com esta necessidade faz-me ver, também, grandes vazios relacionais, solidões (plurais) imensas, falta de esperança, falta de um lugar e de um espaço, espaços pobres com feridas precoces e profundas, com contornos esbatidos, limites instáveis (ou até mesmo inexistentes). O que me leva a constatar que as palavras “falta”, “ausência” e “insuficiência” são o léxico da solidão na sua dimensão mais negativa.
Como já referi, a própria arquitectura da sociedade moderna produz estes estados. O desenvolvimento tecnológico torna-nos escravos da virtualidade, do superficialismo e do mascarismo (o uso de uma pele artificial, que é uma pele que não nos serve, não é feita à nossa verdadeira medida, mas sim à medida do desejo de ser vista e reconhecida). Em vez de vivermos de relações reais, substituímos a vivência pelo usufruto de “relações” virtuais.
A experiência de solidão é transversal podendo ser experimentada por qualquer um de nós – é uma experiência comum de não se poder contar com ninguém e que as pessoas que estão à nossa volta, não atendem às nossas necessidades de forma suficiente e autêntica. Ela é subjectiva, mas é comum. É subjectiva porque é construída e caracterizada pelas nossas vivências e sentida de forma única e, é comum, porque todos nós a podemos experimentar mediante as circunstâncias apresentadas pela nossa própria vida. Então, se é uma percepção subjectiva e comum, faz dela uma experiência emocional ligada à qualidade dos nossos vínculos, relações, experiências vivenciais e existenciais, bem como ao nosso desejo e à nossa falta e, também, ligada à construção da nossa identidade.
Por isso, apesar do foco dado até agora recair na dimensão mais negativa da solidão e estar ligada, também, a aspectos culturais, societais e sociais, a solidão está associada a vivências mais depressivas (podendo mesmo tornar-se sintoma da depressão – a solidão como sintoma da perda do amor do objecto – o Outro deixou de me amar; deixei de ser visto e de existir aos olhos do Outro).
Mas há que compreender a solidão nas suas múltiplas formas e significados e não dissociá-la da vivência de Ser-Se-Humano.
A solidão é fundamental para o funcionamento mental e para o próprio dinamismo psíquico. O sofrimento e a dor fazem parte da experiência humana. A solidão constrói lugares em nós mesmo. Lugares esses que toleram, que são criativos, com espaço para outros e fundamentais para definir quem somos, como somos e quem queremos ser. Lugares transformantes e transformadores.
Se eu conheço o amor, a tolerância, a adequada responsividade e o limite, então, conheço o caminho da e para a liberdade, para a autonomia pelo amadurecimento e através do amadurecimento e crescimento assistido. Torno-me o que os outros de mim fizeram e só assim me posso sentir . Capaz de estar sozinho (mas acompanhado pelas relações que me dão suporte e segurança, essas que internalizei e marquei dentro de mim).
Uma das grandes funções do psicólogo em pleno século XXI é dar corpo e substância a este tema, através de um olhar atento e participativo que acompanha a noção do mundo em evolução e construção e através da reflexão. E só desta forma é que podemos sentar a vida no cadeirão confortável do nosso consultório e pensá-la. Pensá-la de forma a pensar o aqui-e-agora, recordando o passado e transformá-la.

Sendo seres de relação, e no que diz respeito à solidão, não podemos falar de nós sem falarmos, também, do Outro. Não existimos sozinhos e não nos salvamos sozinhos.

E não alheia à situação pandémica actual, não anulando o que escrevi mais a cima e não descuidando a dimensionalidade da experiência do toque, do abraço, do beijo e do contacto humano, constato que, por ironia do destino, são as novas tecnologias que nos dão a possibilidade, hoje, de combate direto à solidão que pode sentir-se em tempos de isolamento social. Obviamente que não é a mesma coisa, mas é alguma coisa.

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